quinta-feira, abril 12, 2007

1 semana

Apesar das dores causadas pela idade, ela sempre estava sorrindo; sempre alegre. Vigilante e desconfiada, zelava por suas coisas, monitorava a validade dos alimentos e reclamava do excesso de batata frita na mesa. Tinha fama de mandona e gostava de ter sua verdade reconhecida. De fato, não raro ela tinha razão sobre as coisas, afinal, com 98 anos no currículo, sua sabedoria era inquestionável. Conhecia velhas músicas de roda; umas que só ela deveria se lembrar. Músicas estas que o meu irmão deve ter guardado para a posterioridade, escritas em sua caligrafia trêmula. Eram alegres, divertidas, engraçadas. Como ela. A religião era mais que uma verdadeira paixão; já era seu estilo de vida. Seu quarto era um altar em expansão, com uma quantidade de imagens de Santos que aumentava com o passar dos anos. Tantas que por vezes uma caía e perdia uma cabeça ou mão... Então ela me chamava. Eu era seu restaurador pessoal de imagens sacras. Chegava em seu quarto com a Santa-Cola e as imagens ficavam novas. Trazia também para ela histórias das mais variadas, que eu lia em revistas ou livros. Ela reprovava, na maioria das vezes, dizendo que aquilo era cultura inútil. Sempre discutíamos coisas sobre religião, violência e vida noturna. Sempre com opiniões opostas. Ela também gostava dos desenhos que eu fazia. Gostava, na verdade, de qualquer rabisco que tivesse algum significado, mesmo se ela olhasse para o sapo que eu havia desenhado e exclamasse "Oh! que bela pedra!". O último desenho que ela viu de mim foi um bode. A última notícia que teve de mim, foi que eu tinha ido trabalhar, depois de ter saído a noite e ido dormir tarde. Há uma semana, ela está mais longe de mim, mais próxima de seus Santos. Deixou saudades.

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Avó Aleixina. 1908-2007. Desenho por Eduardo.

3 comentários:

V disse...

Conforme prometido: frenezi de comentários, daqui até o final da página.

Então... Dizer o quê? Só posso dizer que sei como é. (E que você caprichou no texto, tenho certeza de que ela gostou.)

Paralaxe disse...

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Juliana Toledo disse...

mon chou como assim?????
nossa me senti mal agora, por não saber disso..
me perdoe pela distancia...nao sabia que havia perdido alguem tao especial..
me conte depois tudo...
só tenho a lhe falar, que das perdas que tive ate hoje, foi a minha avó que deixou mais saudades...
entendo perfeitamente o que sentes...e só tenho a lhe dizer que essa historia de que o tempo cura é bobagem...
pessoas especiais e importantes não devem nunca cair no esquecimento
a cada dia que passa parece que minha querida esta cada vez mais viva...e acho que isso é bom
as pessoas mudam de plano, mas nao deixam nossa historia...
um grande beijo
e me descuple pelo relapso...

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