quinta-feira, maio 24, 2007

Murdochville

Muitas pessoas já devem ter visto ou, no mínimo, ouvido falar de cidades fantasma. Cidades sem nem uma viva alma circulando pelas ruas. Quem já viu filmes ambientados no Velho Oeste deve saber do que eu estou falando.

Creio não ser o único a ver a "fantasmização" das cidades como um processo rápido. A impressão que se tem é que uma cidade é "viva" ou "morta"; não-fantasma hoje e fantasma amanhã, ao raiar do sol. Pois bem... Existe o meio termo. Como o sistema que são, essas cidades travam uma batalha agonizante para sobreviver. Bem vindos à Murdochville.

Estive em Murdochville em julho de 2003. Trata-se de uma cidade na península da Gaspésie (Quebec; leste do Canadá) que foi fundada numa época em que o cobre brotava da terra aos montes e a mineração estava em seu auge. Essa região do Canadá é muito rica nesse metal. Porém, nos anos 90, o cobre começou a ficar escasso. Para encontrá-lo, era preciso cavar mais fundo e isso custava cada vez mais caro aos cofres da cidade, que chegou a ter cerca de 5000 hab. Nessa década, várias casas de fundição de cobre foram fechadas, culminando com o abandono da mina, que hoje serve de atração turística. Trezentos trabalhadors chegaram a ser demitidos em um único dia e a população começou a cair. Os que ficaram, continuaram os esforços para diversificar a economia local e atrair investidores do ramo químico, já que a cidade possui um amplo parque industrial com uma boa infra-estrutura herdada da atividade mineradora.

Quando da minha visita, passei por ruas totalmente desertas, postos de gasolinas cujas bombas estavam secas, cobertas por um plástico grosso e opaco pela poeira, carros abandonados e duas ou três pessoas que passeavam com o cachorro ou tomavam sol em frente à casa. Muitas placas anunciavam imóveis à venda por preços ínfimos. O centro esportivo e o cinema, que chegaram a ser o orgulho da cidade estavam fechados por tempo indeterminado. Finalmente, o que mais me impressionou, numa rua mais comercial, foram as pinturas que, literalmente, povoavam todas as fachadas. Tomando café num restaurante, conversando em uma esquina ou olhando uma vitrine, os desenhos retratando pessoas em seu dia-a-dia tentavam dar mais vida a uma Murdochville moribunda.

Hoje, a cidade de mais de 50 anos tem como símbolo a energia eólica e 850 habitantes que lutam por sua continuidade. Desejo a eles sucesso...

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Localização na Península da Gaspésie
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Mapa da cidade
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Cidade vista do alto
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Vista aérea da mina
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Mina de cobre ociosa
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Minerador de cobre ocioso
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Minerador de primeira viagem
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Antes da descida, no centro de processamento do cobre
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...E ninguém para trocar o pneu?!
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Um dos rostos pintados na cidade que me chamou a atenção; cruzamento de Seu Madruga com Saddam Hussein (eu jamais mencionei que os rostos pintados eram amigáveis!).

segunda-feira, maio 14, 2007

O Salmão

Em uma atitude um tanto egocêntrica, não costumo colocar nos meus blogs coisas que não são escritas por mim. Abro aqui uma meia exceção; já que meramente traduzi um texto.

Como viajar com um salmão
(Comment voyager avec un saumon- Umberto Eco- Tradução Livre)
Se formos considerar os jornais, nossa época é assombrada por dois grandes problemas: a invasão dos computadores e a inquietante expansão do Terceiro Mundo. É verdade, e disso eu fui testemunha.

Há pouco tempo, eu fiz uma breve viagem; um dia em Estocolmo e três em Londres. Em Estocolmo, tive tempo de comprar um salmão defumado enorme a um preço irrisório. Cuidadosamente embalado em um plástico, me aconselharam, já que estava de viagem, a conservá-lo em local fresco. Falar é fácil.

Felizmente, em Londres, meu editor havia reservado uma suíte de luxo equipada com um frigobar. Chegando ao hotel, tive a impressão de estar numa ruela de Pequim durante a revolta dos Boxers.

Famílias acampando no sagüão, viajantes escondidos em sacos de dormir, descansando sobre suas bagagens... Eu me informo com os empregados, todos indianos ou malaios. Eles me respondem que, no dia anterior, o hotel havia sido dotado de um novo sistema informatizado, que por conta de uma queda de energia havia entrado em pane duas horas atrás. Isso tornava impossível saber se os quartos estavam livres ou ocupados. Teria que esperar.

No final do meio-dia, o computador consertado, eu pude enfim entrar no meu quarto. Preocupado com o salmão, tirei este da minha mala e me pus à procura do dito frigobar.

Normalmente, os figobares dos hotéis comuns contêm duas cervejas, duas garrafas de água mineral, umas mini-garrafas de uísque, uma pequena variedade de sucos de fruta e dois sacos de amendoim. O do meu hotel, de dimensões gigantescas, tinha cinqüenta mini-garrafas de uísque, gin, Drambuie, Courvoisier, Grand Marnier e outros licores, oito garrafas de Perrier, duas de Badoit, duas de Évian, três garrafas de champanhe, várias latas de stout ou pale-ale, de cerevejas holandesas e alemãs, vinho branco italiano e francês, amendoins, amêndoas, chocolates, biscoitos salgados e alka-setzer. Nenhum lugar para o meu salmão. Dois grandes armários estavam à minha disposição: coloquei neles todo o conteúdo do frigobar, guardei meu salmão e não me preocupei mais. No dia seguinte, meu monstrengo jazia na mesa e o frigobar estava entulhado com produtos de qualidade. Eu abro os armários e constato que tudo que eu havia guardado continuava lá. Eu ligo para a recepção e peço para informar aos responsáveis pelo serviço de quarto que eles encontram o frigobar vazio não por eu consumir tudo, mas por causa de um salmão. Me respondem que esta informação deve ser dada ao computador central pois os empregados não são anglófonos e, por conta disso, podem apenas receber instruções em Basic.

Abri dois outros armários para transferir o conteúdo do frigobar, no qual enseguida eu guardei o salmão. Dia seguinte, às quatro horas, o animal descansava na mesa e começava a exalar um cheiro suspeito.

A geladeira transbordava de garrafas e latas etílicas. Quanto aos armários, eles lembravam o cofre de um mafioso nos tempos da lei seca. Eu ligo novamente para a recepção e me dou conta de que eles tiveram uma nova pane no sistema informatizado. Eu tento explicar meu caso a um sujeito com os cabelos presos em um coque: infelizmente, ele falava um dialeto que, de acordo com o que me explicou um colega antropólogo, era utilizado somente no Kefiristão na época em que Alexandre, o Grande celebrava suas bodas com Roxane.

Na manhã seginte, eu fui fechar a conta. Ela tinha um valor astronômico! Aparentemente, em dois dias e meio eu havia consumido vários hectalitros de Veuve Cliquot, dez litros de uísques diversos, incluindo alguns maltes muito raros, oito litros de gin, vinte e cinco litros de Perrier e Évian, algumas garrafas de San Pellegrino, mais suco de fruta que o necessário para manter em vida todas as crianças da UNICEF e uma quantidade de nozes e amêndoas que faria vomitar o legista encarregado pela autópsia dos personagens de La Grande Bouffe. Eu tentei me explicar mas o empregado sorridente, dentes escurecidos pelo betel, me assegurou de que o computador havia registrado tudo aquilo. Pedi um advogado. Me trouxeram um abacate.

Meu editor está furioso e acha que eu sou louco. O salmão foi pro lixo. Minha família disse que eu deveria beber menos.

(ECO, Umberto, 1986/1997 - Comment Voyager avec un Saumon - Nouveaux pastiches et postiches, Éditions Grasset)
NOTA: Pensei que esse texto não tivesse sido publicado por aqui mas acabei de descobrir que ele está num livro chamado "O segundo diário mínimo". Soubesse disso, provavelmente não teria tido o trabalho...

Garrafada da floresta (puçanga)

Atendendo à sugestão do Eduardo...

Tudo começou quando, caminhando pela rua. minha mãe avistou um daqueles vendedores de iguarias do nordeste. Aqueles mesmos, que se instalam nas quadras de Brasília, vendendo doces de frutas que bóiam melancolicamente dentro de potes de geléia sob o sol escaldante do meio dia.

O nordestino da vez era índio velho, pajé andarilho, caboclo sabido. Entendia de tudo que era verde e curava: folhas da mata e notas de 1 Real (sim, elas curam-seja com a compra de remédios seja repassando a corrente que geralmente vem escrita com caneta BIC na marca d'água). Minha mãe não se interessou por suas compotas, mas o velho índio tinha um ás na manga. Uma poção da floresta, ideal para curar o meu irmão que, no dia, não estava bem do fígado. O lado consumista de mamãe não resistiu. Assim, chegou à nossa casa a milagrosa garrafa contendo a "POÇÃO do CHARLATÃO"(apelido carinhoso)...

No rótulo temos as especificações:
Composição: Angico preto, Pau ferro, Açoita cavalo, Pau de chapada, Podoi, Arueira, Umburana de cheiro, Gonçalava, Sucupira, Jatobá, Batinga, Fedegoso, Catingueira, Pau darco e Joana guba.
(Verdadeiro trabalho de alquimista da selva)

Indicado no tratamento de: Anemia, gastrite, bronquite, sinusite, úlcera, má digestão, corrimrntos, fígado, rins, inflamação no útero, ovário, hemorróida e inflamações em geral.
(Me fez lembrar de um bruxo de Abidjan que prometia curar Aids e "Viado")

- Manter longe do alcance das crianças, animais domésticos e idosos.
- Pode conter rastros de amendoim.
- Válido até 07/2007, segundo o cheiro da chuva.
- Ao persistirem os sintomas, compre outra garrafa!

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...E já está no finalzinho! Descobri que com PINGA fica uma delícia, mas você começa a ver coisas que não estão ali.


Em tempo: Puçanga.: feitiço, magia no vocabulário dos índios TUKANO.

quinta-feira, maio 10, 2007

Lógica neo-desexistencialista comparada.

Filho de um soldado do exército vermelho com uma polonesa, nascido na Alemanha socialista e criado num goulag, Jürgen Adenovich-Popov quase teve seu nome inserido nos anais da história com sua obra "O Pensamento Neo-Desexistencialista Comparado: de Revoluções e Passeios no Parque", com o qual ele pretendia revolucionar o modo de pensar ocidental, oriental, africano, polinésio, pré-colombiano, nórdico, greco-romano e assírio-babilônico (no mínimo).

Infelizmente, um agente da KGB confiscou seu livro, que recentemente foi encontrado num obscuro bordel no Uzbequistão. Uma fonte secreta me passou essa imagem de um trecho de sua obra inédita.

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"Inteligência Aracnídea; J. Adenovich Popov"
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