quarta-feira, novembro 25, 2009

A Viagem no Tempo.

Acordei de mau humor com o gato do vizinho miando; lembrando-me de que em algumas horas, um avião me levaria de volta pra Vancouver, onde continuaria a minha viagem. Lá estavam meus pais me esperando, mas eu não estava com vontade de sair do Japão. Já me sentia em casa em Tokyo. No último dia, apenas fiz as compras finais e visitei um supermercado chique da cidade. Acreditem, supermercado chique pode ser um ponto turístico no Japão.

Mesmo que você não vá comprar nada (era o meu caso), você vai encontrar coisas curiosíssimas ali. A "peixaria" é um aquário grande onde todo tipo de seres marinhos-de peixes a camarões esquisitos-aguardam a paz eterna. A carne (vermelha) é cortada em lâminas, estilo que eles chamam de chabu chabu, e consumida muitas vezes crua. Quem quiser um sashimi-de-vaca...

Mas a coisa mais curiosa do mercado era o melão. Entre os presentes, elaborados e empacotados com um esmero fora do comum fazem figura toda sorte de frutas. Dentre elas, se sobressai o melão, ali, reinando em um local de destaque sobre uma caixa de madeira com palha e um laço de papel de seda em sua volta. Parece haver no Japão uma determinada data em que frutas são oferecidas de presente. E deve ser algo importante pois o maldito melão custa bem uns 120 DÓLARES!! Seria a digestão mais cara da minha vida. Mas seria obrigado a comer, pois como toda fruta, o melão-barão é um ativo de depreciação rápida que logo estará murcho, com leve sabor de álcool e coberto de mosquitos.

melao muito caro
Vai um melão??

Depois do peculiar mercado, almocei e fui pro aeroporto. Viajei com uma excursão de colegiais que deve ter ocupado uns 70% do avião. A guia me disse que elas iam pra Vancouver, mas vi as meninas pegando as malas como quem fosse fazer conexão pra Toronto... Fiquei sem entender.

aeroporto de narita
Fosse no Brasil, elas iriam pra Disney.

aviao em narita
O aviãozinho cretino que me trouxe de volta.

Graças à linha internacional de mudança da data e à diferença de horário, voltar do Japão é experimentar a forma menos sci-fi de viagem no tempo. Saí de lá às 19h de um dia 28 e cheguei do outro lado do Pacífico às 11 da manhã do mesmo dia. Me senti até mais jovem.

Pra terminar, "Dooooooooooooooooomo Arigato" à(o/s): Tio Piras, Tia Liana, Ricardo que me ciceronearam por Tokyo e arredores; Tomoko pelo planejamento estratégico da viagem; corvos e gatos do vizinho por me acordarem no horário; Mosburger, Loteria, "Konbines" e Bentos por matarem a minha fome; senhores geniais que inventaram o guarda chuva de plástico e o cartão Pasmo; produtores de shochu e sake por alegrarem as noites; japoneses (ou não) que me fotografaram e/ou se deixaram fotografar; gueixa que tão morbidamente me desprezou e finalmente, à nuvem que encobriu o Monte Fuji, por causa da qual terei que voltar lá...

terça-feira, novembro 17, 2009

Walkabout

Penúltimo dia no Japão. Uma terça feira de sol e eu, cheio de coisas para fazer. Ainda teria de ir ao bairro de Akihabara, procurar "figurines" para um meu irmão. Também teria que ir a outro bairro, Asakusa, procurar a flauta "shakuhachi" (um dos instrumentos mais chatos do mundo) para um outro irmão. E visitar o Edo-Tokyo Museum, imperdível, no bairro de... Já nem me lembro, e estou com preguiça de ir até a papelada verificar - depois eu esdito o post! hehehe

Comecei com o museu, pela manhã. Fica no "bairro do Sumô", ao lado de onde os lutadores treinam. O Edo-Tokyo nos proporciona um passeio pela história de Edo (e posteriormente, Tokyo), do período feudal ao pós-guerra, através de várias maquetes. Visita obrigatória!

edo_tokyo_museum
Exterior do museu

maquete de castelos medievais
Uma das maquetes: ponte em Edo

arena de sumo
Aqui é a "Meca" do Sumo. Infelizmente, não pude assistir à luta.

Da Meca do Sumo, fui para a Meca dos Otakus, Geeks, Nerds e afins. Akihabara é uma Feira-do-Paraguai grande. Um bairro só de lojas de eletrônicos, mangás, animes, CDs, DVDs, e garotas fantasiadas fazendo propaganda nas ruas. Se eu falasse japonês, eu iria comprar muita bobagem ali. Meu eu-lírico-otaku despertou entre as lojas de mangas, figurines e DVDs.

akihabara
Fachada colorida em Akihabara.

burger king em tokyo
No BK do Brasil eles lançaram essa novidade? Hamburger com 7 carnes. Se eu ficasse mais tempo em Tokyo, iria provar.

Segui para Asakusa quando anoiteceu. E com isso, bati meu recorde de caminhadas. Pela primeira vez, eu "cansei de andar" e tive que sentar no metrô. No antigo bairro de Asakusa (onde tinha o templo), eu comprei as últimas lembranças para levar pro Brasil. A flauta de bambu (shakuhachi), meu maior objetivo ali, não foi encontrada.

Eu adorava a reação dos japoneses quando eu mencionava a palavra shakuhachi. Eles sempre faziam uma careta no estilo "WTF?" e ficavam falando "shakuhachiiiiiiiiiii??? No... no.... no shakuhachi!". Trata-se de uma flauta de bambu, tocada por alguns monges-pedintes que usam uma máscara que só deixa a boca aparecendo. Segundo eles, uma forma de neutralizar o ego. O som é desafinado e monótono. É um instrumento raro. Como encontrá-lo foi bem mais difícil do que eu imaginei, fiz apelo ao bom e velho Google. Achei uma loja perto de Shinjuku que vendia Shakuhachi. O mais barato era US$ 250. Agora eu me pergunto... Porque um monge que tem uma flauta de 250 dólares vai pedir esmola?

Voltei pra casa e voltei a sair (viu como eu andei?), dessa vez fui com o Ricardo para a noite iluminada de Shinjuku. A vida noturna ali é bem agitada, com vários bares, cinemas, boites e clubes safados, com shows de strip e pole dance. Na porta desses clubes, sempre ha um leão de chácara, geralmente afro ou latino que, ao ver estrangeiros "perdidos" pelas ruas, insistem para que entremos conferir as beldades... O método japonês de dizer NÃO deve ser empregado. Basta não responder e nem olhar que eles desistem de você. Em um dos bares, eu cheguei até a ficar assustado, porque enquanto eu estava tirando fotos dos arredores, me vi cercado por um pessoal de terno mal encarado que parecia saído de algum video game da Yakuza. Queriam saber o que eu estava procurando ali...

Só foto uai... -_-

shinjuku a noite
Shinjuku

segunda-feira, novembro 09, 2009

Objetivos gastronômicos.

Mais um dia de chuva forte em Tokyo. Parecia tempestade de fim de ano em Brasília, só que com mais vento. E, como consequencia, um dia frio. Mas era o meu último dia para ir ao Bazar Oriental e comprar as "lembranças de viagem" aguardadas pela familia. Acho que acabei comprando mais presentes pros outros que pra mim. Tinha planejado ir a Akihabara também, mas, após sair do Bazar e chegar em casa com a calça encharcada e colada na minha perna eu desisti. Essas compras, fui fazer à tarde. No almoço eu tinha um programa especial.

Gastronomicamente falando, fui ao Japão com dois objetivos. O primeiro era comer baleia, já que a caça só é permitida lá e na Islândia, até onde eu sei. O segundo era comer a carne de Kobe, a mais cara do mundo, se eu achasse ela barata; e as minhas esperanças eram mínimas. O restaurante de baleia - olha que sorte! - ficava a duas ruas da casa onde eu estava. Fui almoçar lá. Entre as três opções no menu do almoço, optei pela baleia grelhada. Sashimi de baleia eu não iria arriscar. É mamífero cru; não pode ser muito bom. Como eu esperava, a carne é bem dura e se assemelha às demais carnes de caça, com um gosto forte que lembra o carneiro.

pescadores de baleia
O quadro no restaurante mostra como eles caçam a baleia...

carne de baleia
...E ela vem pro nosso prato. Simples assim!

(E eu não quero nenhum ambientalista reclamando; primeiro porque estava bom, segundo porque ninguém vai me convencer de que é menos cruel comer alface. Tenho certeza de que o pé de alface está bem mais feliz ali, plantado na terrinha dele, úmida e cheia de minhocas, do que estirado no meu prato aguardando ser devorado com azeite)

Já a noite, "convidei" Tio Piras e Tia Liana para um jantar no Gonpachi. Com uma fachada que lembra os antigos castelos japoneses e decoração interna rústica, o tradicional Gonpachi já recebeu Bill Clinton, George Bush e, talvez, Saddam Hussein. O lugar foi fonte de inspiração para o restaurante do primeiro Kill Bill, onde ocorre o massacre. A comida é muito boa, variada e menos cara do que eu esperava. E foi ali que, inesperadamente, eu realizei meu segundo objetivo: provar um "Kobe Beef". Por cerca de 30 dólares, eu comprava um espeto que vinha com 2 pedaços de carne e uns legumes grelhados. Foi o mais barato que eu achei e resolvi cometer o pecado. Quem gosta de carne, como eu, vai entender. Realmente é uma carne diferenciada, misturada com gordura, com uma textura extremamente macia que se desfaz na boca. Quando acaba, dá até uma certa tristeza, que aumenta quando chega a conta...

bife de kobe
Kobe!! =D

Voltei pra casa e fui a uma loja chamada Dom Quixote. Segundo a Liana, é as "Lojas Americanas" do Japão. Ali você encontra de tudo. Comida, relógios genéricos, relógios de marca caríssimos, artigos de pesca, perfumes, sex shop, objetos irreverentes... Fui lá pra comprar uma mala, pra levar os excessos. Quase comprei uma cueca-de-turista com a estação de metrô local. Entre as bizarrices da loja, a que mais me chamou à atenção foi a almofada de bunda. Como eu jamais compraria a cafonice, a não ser que fosse dono de Motel, me contentei com uma foto sem vergonha.

bundinha japonesa
Apalpando uma bundinha japonesa...

sábado, novembro 07, 2009

Um pouco sobre Ginza

Depois do sábado em Hakone, domingo, agora com a chuva nos perseguindo em Tokyo, fomos de carro até Ginza.

Ginza é provavelmente o "bairro" mais famoso de Tokyo. Pelo menos era o único que eu conhecia - de nome - antes de chegar lá. Ali estão concentradas as sedes das grandes empresas e as lojas caras. A loja da Apple, da Sony e de várias grifes européias estão ali. Um paraíso para quem gosta de compras vultosas. Como não estávamos lá para isso, apenas passeamos pela rua principal, que estava fechada para carros.

Na verdade, nem ia escrever sobre o domingo cinzento em Ginza, mas achei injusto deixar o famoso bairro de lado. Enquanto eu perambulava por lá...

placa de carro japonesa
Consegui tirar a foto de uma das estranhas placas japonesas. "Ru Ponto Ponto Ponto Cinco"

palacio imperial japones
Indo pra Ginza, você passa em frente aos jardins do Palácio Imperial.

predio cerveja sapporo
Prédio com a marca da cerveja Sapporo. As placas brancas atrás são iluminadas a noite.

rua em ginza
A rua principal, onde você pode desabastecer a conta bancária.

Photobucket
O famoso relógio.

cafe doutor em toquio
Um japonês foi ao Brasil e ficou intrigado pois aqui todos se tratavam por "Doutor". Impressionado com o número de detentores do título acadêmico nas terras tupiniquins, resolveu dar esse nome ao seu Café. Pelo menos foi uma história assim que eu ouvi.

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Quando anoiteceu, fui ao bairro Hi-Tech de Akihabara. Quase todas as lojas estavam fechando e acabei não me demorando muito por lá. Tive de voltar na terça. Assim, o assunto foi empurrado para outro post.

quarta-feira, novembro 04, 2009

...E eu não vi o Monte Fuji.

Era sexta-feira quando voltei pra Tokyo. Eu tinha duas opções de viagens para o fim de semana. Poderia ir a Nikko, para ver um templo importante, que deu origem à história dos três macacos - um que não vê, um que não fala e um que não ouve; ou ir a Hakone, região vulcânica com vários lagos onde fica o Monte Fuji. Como a previsão do tempo era de sol, optei por Hakone no sábado. Caso fosse no domingo, teria de viajar sozinho.

O dia amanheceu amarelo. Mas, confiantes na previsão do tempo, fomos para as montanhas assim mesmo. O primeiro trem, que nós perdemos na ida mas pegamos na volta tem um vagão com vista panorâmica atrás, o que atrai muitos casais em lua de mel. Por conta disso, o trem é conhecido como "Romance Car". Tirando o vagão especial, é um trem comum...

Conforme íamos nos aproximando de Hakone, o tempo ia fechando. Ao parar na estação da cidade, começou uma chuva fina, no melhor estilo garoa paulista. Ali, pegamos outro trem, que nos levou montanha acima até um teleférico. O teleférico, por sua vez, nos levou aos vulcões. A mudança de paisagem é abrupta. Você está subindo uma montanha cheia de árvores e, quando chega no cume, vê que do outro lado há uma excavação imensa de um provável campo de extração de enxofre. A paisagem fica amarela e a vegetação escura, queimada pelo calor das rochas vulcânicas.

vulcoes em hakone

Almoçamos ali mesmo, em uma das lojas/restaurantres que ficam em volta do teleférico "mais usado do mundo" segundo o Guiness. Pela primeira vez, senti frio no Japão. Por via das dúvidas, compramos um guarda chuva cujo uso era quase impossível devido ao vento na montanha. Durante o almoço, notei que a paisagem lá fora estava diferente. Ao entrar no restaurante, o tempo nublado até dava um ar bonito à região vulcânica, combinando com a paisagem. Desembaçando a janela ao meu lado, vi que o tempo nublado havia simplesmente caído sobre nós e TUDO estava envolto por uma neblina espessa.

vulcoes em hakone
Antes de a neblina descer. Depois... bom... depois estava branco!

Terminado o almoço, subimos a montanha até os poços onde os japoneses cozinham ovos numa lama fervente. São os famosos "ovos negros" de Hakone. Têm a casca preta, mas gosto de ovo cozido mesmo. Esses não eram vendidos por unidade mas em caixas de 6 e, por isso, acabei não comendo. Como a água e a lama são de origem vulcânica, o cheiro de enxofre é fortíssimo e, pra quem conhece, lembra a chegada no Rio de Janeiro, na saída do aeroporto...

poca de enxofre em hakone
Desses poços azuis saem os ovos negros.

Esses ovos são tão famosos que eles até vendem um "ovo negro de pelúcia" em uma das lojas. Turista bobo que eu sou, quase comprei a esquisitice. Na loja que vendia o ovo de pelúcia também vendia o ovo (comestível) por unidade. Não tirei foto e nem voltei na loja porque era longe de onde eu estava e o vento gelado com a chuva não me davam muita vontade de me desviar do meu caminho...

Após a montanha que fazia ovos negros e cheirava a enxofre, era hora de descer de teleférico para pegar o "Navio Pirata", as embarcações de aparência inglesa que passeiam pelo lago que, eu acho, era o maior da região. No meio do lago, o vento era mais forte ainda. O passeio foi bonito, apesar do tempo. Porém, por mais que eu goste de dias nublados e neblina, nesse dia em especial eu queria mais era céu azul. As nuvens, assim como a poluição suspensa em Tokyo, esconderam o Monte Fuji. Ou seja, fui ao Japão e não vi o ícone mais famoso de lá. Agora vou ter que voltar.

os barcos de hakone
AHOY!

lago hakone
O Monti fuji está aí. Aí, atrás daquela nuvem. Viu?
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