domingo, junho 27, 2010

A Cabana

Outro dia uma amiga minha me perguntou se, quando criança, eu tinha "clubinho". Por "clubinho", entenda-se uma casa de madeira no jardim de casa onde garotos supostamente fazem planos mirabolantes para conquistar o mundo, estereótipo que tem sua provável origem nos gibis-o Clube do Bolinha é o mais famoso. Acho que todo garoto que tem casa e jardim quer ter um "clubinho". Eu não era diferente. Mas queria exatamente um "clubinho", mas um laboratório, onde faria experiências e cataria insetos. 


Se eu não tive o tal clube, acho que por pura escassez de materiais-já não me lembro, eu construí duas CABANAS...
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Tive a sorte de morar perto de uma mini-floresta que ia do fundo do meu quintal até o fim da rua, densa o bastante para que eu me embrenhasse na vegetação tal qual um Borba Gato. Dali tirei os galhos mortos com os quais fiz a primeira cabana, apoiada em um pinheiro torto no meu jardim, que crescia em diagonal. Essa cabana era cônica, como uma oca norte-americana. Dentro, cabiam eu e meus irmãos. Mas esta não durou muito; não sei se foi destruída pela neve ou se eu mesmo desmontei.
 
Tempos depois, com meus amigos Thiago e Alexandre, construí uma segunda cabana, essa sim, obra-prima da arquitetura e engenharia rústica infantil. Em uma área de floresta mais densa, construímos uma cabana quadrada, que chegou a ter 3 quartos (quatro, por pouco tempo) onde cabiam duas pessoas em cada. Levou três meses para ser construída, tinha tapete no interior e teto com lona e folhas, protegendo o todo contra as chuvas. Tinha também um ninho de abelhas, na base de uma das árvores que serviam de "pilar", contra o qual lutávamos sem sucesso na primavera. Essa luta foi a grande primeira história da cabana. Enterramos por duas vezes o ninho com pedras, usamos álcool, areia, batíamos com galhos... Elas apenas ficavam mais enfurecidas. Acabamos acostumados com as óbvias ferroadas; elas também não nos queriam ali.

Noutra ocasião, inventamos de fazer um jardim por lá. Lembro que nós fomos até uma casa cujos proprietários haviam saído de férias e saímos com 2 sacos de adubo. Eles tinham adubo suficiente para plantar os jardins suspensos da Babilônia; não vimos mal em pegar dois míseros sacos de supermercado (peço desculpas se, por acaso, o dono do adubo vir a ler isso). Preparamos a terra, mas não chegamos a plantar nada no local. Foi por essa época que a cabana entrou em decadência.

Praticamente restrita ao Alexandre e eu, frequentada por vezes por nossos irmãos, pessoas de fora descobriram o local. O primeiro foi um garoto mais novo que morava numa rua ao lado e às vezes andava de bicicleta comigo. Ele me chamou um dia pra ver o que ele tinha feito numa floresta. Na hora entendi do que se tratava e meu orgulho de senhor feudal foi ferido. Chegando lá, disse a ele que era EU quem tinha feito aquilo e até mostrei, para provar, um "documento" que guardávamos em uma passagem secreta sob um dos tapetes. Disse ao garoto que podia ir lá contando que não mexesse em nada... Mas ele ficou decepcionado. A cabana tinha dono.

Decidimos construir o quarto número quatro e expandir nossos domínios. Achamos o máximo quando vimos que o dois dos paus que serviam de "apoio" para o primeiro quarto (a "pedra fundamental" da cabana) daviam sumido e ela estava de pé meio que "por magia". Eu era contra a construção de mais um quarto, por esse motivo. Meu amigo insistiu e fez um "projeto" que me pareceu sólido. Nesse dia, dois funcionários da prefeitura apareceram por lá, nos advertindo que aquele tipo de construção era ilegal. Deveríamos "fazer o favor" de desmontar a cabana. Quando eles viraram as costas, continuamos a nos expandir. Decidimos que o Rei iria ter que se virar com um processo de usucapião.

Uma semana depois, a cabana desabou. O sólido quarto-quarto foi o que ficou de pé. Mas com os 75% dela em ruínas e homens da Lei querendo nos tomar as terras, ficamos desmotivados. Esse foi o fim da cabana.

mapa da cabana
Agora, quatro casarões ocupam as terras onde um dia a cabana reinou solitária. Ia colocar uma foto da própria cabana aqui mas não achei. =(

História contada a pedidos da Clarissa. Me senti como se estivesse a escrever um livro de memórias... Agora, vou ver o jogo do Brasil.

quinta-feira, junho 24, 2010

?

Há um acontecimento que acontece muito comigo, o qual me deixa extremamente constrangido. (Início elaborado para enfatizar o fato).

Ontem mesmo, estava em uma biblioteca lendo um jornal de forma compenetrada, mergulhado num texto que falava das enchentes do Nordeste, comparando a paisagem ao Haiti. Eis que, na área superior do meu campo visual, aparecem mechas de cabelo liso e negro, como nos melhores filmes de terror asiáticos. Seguindo a isso, ouço um "OOOOOOOOOOOOOOOOIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII" com voz adocicada e vogais prolongadas. Levanto os olhos para encontrar uma moça morena, com um sorriso impecavelmente branco, enorme, que continua: "E aí?? Tudo bem??"

Olhando para ela, meu cérebro faz uma busca no meu Google Search interno. Now loading... No results matching your search. Nem o I'm Feeling Lucky dá certo. Nenhuma imagem, nenhum artigo na Wikipedia. Pronto. Lá estou eu com a pior cara de ponto de interrogação do mundo, tipo cachorro novo que não entende o que o dono quer. E, obviamente, ela percebe que eu não tenho a mais vaga idéia de quem ela é.

"Fizemos curso da ANVISA juntos!"
"AHHHHHHHHH!!! É mesmo!! São tanto cursos na minha vida que eu me perco! Me desculpe!" (tentando consertar, naqueles casos em que a emenda sai pior que o erro).

Não foi a primeira vez que aconteceu. O que ocorre é que, nesses cursos  preparatórios, os professores têm letra pequena e o ar condicionado fica ligado em temperaturas siberianas, contribuindo para ressecar o ar. No ambiente seco, minha vista fica embaçada e, de longe, eu não enxergo mais nada. Assim, tenho que me sentar lá na frente e não vejo muito quem está atrás.

Pra agravar mais minha situação, minha memória para nomes é péssima. Piora quando o nome é pouco comum e tem "GL" no meio. A sorridente desconhecida-olha que sorte!- tinha um nome exótico, tipo Gleysianne, que eu esqueci, segundos após ela se apresentar.

Descobri que ela frequenta a mesma biblioteca onde eu leio os jornais. Ou eu dou outro fora ou eu arrumo outro lugar pra ler o jornal.

quinta-feira, junho 17, 2010

A Flor Errada

Quando tinha uns 4 anos, a menina resolveu plantar alguma coisa. Porém, não tinha a mínima noção de como se plantava. Ela queria uma flor, talvez uma rosa, que atraísse abelhas, e tivesse um bom perfume, e fosse linda, e lhe desse bom dia todas as manhãs, com gotas brilhantes de orvalho em suas pétalas. Ah... Vá lá... Talvez até um pinheiro mais monótono a deixasse satisfeita.

Na casa de sua avó, ela pegou um saco pequeno e resistente, encheu com uma terra preta de fundo de quintal fez pequenos furos em volta do saco com um palito e regou, com todo o cuidado e carinho do mundo. Levou para sua casa aquele monte de terra molhada e estéril. Dormiu ansiosa, esperando no dia seguinte ser acordada com uma bela plrantinha.

O sol nasceu, ela abriu os olhos e - horror! do saco ingrato de terra preta havia brotado a mais pavorosa das coisas que havia visto. Uma coisa negra, viscosa que parecia olhar para ela, querendo devorá-la: um cogumelo. Tomada pelo medo daquele monstro inerte, saiu chorando para o quarto de seus pais, que colocaram o saco com o cogumelo em um canto da casa e explicaram ela o que era.

No dia seguinte ela viu o saco num canto da cozinha. O treco asqueroso havia se mexido, provavelmente em busca de sol. Resolveu deixar aquela anti-rosa ali, para que secasse até morrer. Porém, com o tempo teve piedade do cogumelo. Quando estava quase seco, a menina o abrigou novamente em seu quarto e lhe ministrou um pouco de água. Apesar de feio, foi o que nasceu de seu trabalho. Era algo com que ela se preocupava. Mas cogumelo não é algo que vive por muito tempo em um saco, em um quarto de menina. Enquanto ele viveu, foi muito bem cuidado.

E, enquanto era bem cuidado, a menina aprendia por sua responsabilidade, a ver uma estranha beleza que jamais encontraria em nenhuma rosa.

segunda-feira, junho 14, 2010

A Vuvuzela e o Bambu

Sexta fui a um casamento e voltei pra casa às 4 da madrugada. O que me fez acordar meio dia e emendar café da manhã e almoço. Com sono, o carro me levou até a "Feira dos Importados", também conhecida como "...do Paraguai", que, no dia dos namorados, parecia um mercado de Calcutá. Foi nesse ambiente que almocei e vi (sem som) mais um trecho de jogo da Copa do Mundo. Até agora, só vi trechos - estou alheio à Copa.

Ontem, em casa, liguei a TV e Gana estava jogando com algum país do Leste Europeu. Primeiro som que ouvi da Copa. Conheci as famosas vuvuzelas, chamadas de cornetas por aqui. Que treco chato! 90 minutos de zumbido. É uma lavagem cerebral; se eu estivesse no estádio, acho que eu ficaria uma semana com aquilo buzinando nas orelhas; vibrando os tímpanos. Como já disse, só vi partes de jogo. Os 5 minutos de Gana em campo me cansaram e eu fui ver LOST. Depois, fui jogar PES 2010. E saí pra almoçar.

Sem grandes fomes e com NENHUMA vontade de dirigir, fui a uma temakeria perto de casa. Pedi não um temaki, mas um prato bem em conta, com carne, broto de bambu, harumaki e arroz colorido. Comi pensando no jogo do Brasil (amanhã), nas vuvuzelas que vou ter de aturar e na razão de ser desse post.

Na verdade, eu nem queria falar de vuvuzela, copa, Feira de Paraguai... Confesso que foi só pra encher lingÜiça mesmo. Porque, ao comer broto de bambu, alimento que eu adoro, eu pensei... "Não é exatamente isso que o panda come?" Então, estaria competindo com os pobres pandas na cadeia alimentar! Indiretamente, eu estou matando panda. Comendo uma panelada de broto de bambu, é um bambuzal a menos no mundo, e a droga do panda só come isso! Ah! porque aqueles bichos não comem um churrasco?? Se frequentassem o Porcão, não estariam ameaçados.

A situação é preocupante. Espero que os pandas me perdoem e que ninguém me venha com rimas maliciosas para "BAMBU". Estão avisados!

sexta-feira, junho 11, 2010

Servindo à Pátria

Os servidores públicos têm como missão principal, já ditada pelo nome, servir e atender o interesse público. Ora, o Brasil é o país do futebol. Ora, estamos em época de Copa do Mundo, que vem a ser a cereja em cima desse sorvete de creme enorme chamado FUTEBOL.

Assim, acredito que os servidores públicos deveriam ser dispensados, para poderem melhor desempenhar sua máxima função. Afinal, no momento, o maior interesse público passa a ser o HEXA. E torcer pro Brasil, ainda mais com o Dunga no comando (tá... qualquer que fosse o técnico, o nome dele iria figurar aqui) requer tempo, paciência, concentração, petiscos e cachaça. Não combina com expediente.

Acho até que o ideal seria fazer uma mega paralização, ao menos em dias de jogo, a cada 4 anos. Nas olimpíadas, a gente libera. Questão de interesse Nacional.

Agora é me preparar psicologicamente para os prováveis dias de trabalho com o Brasil jogando.

quinta-feira, junho 10, 2010

Bem Suado

Devo ter sido abençoado. Ou não. Não sei bem. Será que devo acreditar em sinais divinos?

Bom... Vamos aos fatos. Não sou uma pessoa extremamente religiosa, no sentido em que não sou muito de seguir rituais religiosos. À missa, por exemplo, eu raramente vou. Me acho mais supersticioso que religioso, já que acredito em influências, boas ou más, do além.

E ontem recebi uma carta de uma entidade religiosa, contendo uma "medalha milagrosa" que veio junto com uma cobrança não muito milagrosa. Ok. Não vou pegar a medalha pra mim e negar o dinheiro. Minha superstição não me permitiria tal ato. Resolvi doar a medalha à Igreja ao lado da minha casa, junto com um "auxílio pecuniário" que eu já estava pensando em fazer, independente de medalhas; dependente de dívida divina. Seria uma situação de ganho para ambas as partes. A medalha poderá obrar seus milagres com quem de direito e eu não ficaria com peso na consciência.

Hoje, eis que aparece no vidro do meu carro uma mensagem de São Judas Tadeu, onde geralmente só aparece propaganda de vidente e plano de saúde. Primeiro a medalha, depois o Santo (um dos favoritos da minha ultracatólica avó, diga-se de passagem). Será algum sinal? Minha superstição me diz para aguardar um terceiro sinal; três é número forte.

Só peço ao Todo-Poderoso que não me venha com um raio na cabeça.

sexta-feira, junho 04, 2010

Pênalti

Outro dia estava a pensar acerca do penalty, ou pênalti ou penalidade máxima, ou GOLEIRO INÚTIL FILHO DE UMA MÃE INDIGNA!!!!!! ATÉ O MEU FILHO DE TRÊS ANOS E MEIO AGARRAVA ESSA BOLA!!!; como queiram. Ocorreu quando eu assisti ao filme "Fúria de Titãs" que, diga-se de passagem, não é tão mitológico quanto o original, mas também não é tão ruim quanto eu esperava que fosse. Os filmes, tanto o antigo quanto o novo, mostram a interação dos homens com os Deuses do Olimpo. O pênalti é um exemplo clássico de intervenção divina.

Trata-se de uma modalidade  cruel e desumana de, em um jogo de futebol, colocar um ponto final a 90, talvez 120 minutos de partida. Por diversas vezes decidiu campeonatos, incluindo aí duas Copas do Mundo, o "épico" do esporte em apreço. Resta que, grande parte do sucesso desse método reside na sorte e, se você não acreditar nisso, azar o seu. A decisão de quem foi o melhor, quando começam os pênaltis está praticamente jogada nas mãos de Deus, seja lá qual Ele for e o acontecimento bola-estufando-rede irá depender da qualidade do vodú ou da oração feita antes da partida.

Na copa de 1974, o Zaire (hoje República Democrática (?) do Congo) foi o primeiro país da África subsaariana a participar do campeonato. Fazia parte da comissão técnica, um "marabou", espécie de bruxo local, que trouxe com ele toda uma parafernália espiritual para obter ajuda do além e voltar pra África com a taça. Plantou ervas mágicas no canteiro do hotel, fez rezas e danças, fechou o corpo dos jogadores, colocou despacho na encruzilhada... Não deu certo e o desempenho do Zaire foi risível.

Mas tenho certeza de que, se eles tivessem chegado a uma decisão por pênaltis, teriam sido campeões. Não haveria craque que pudesse peitar a vontade do Panteão africano. Meu conselho é: fechem o gol. Mas lembrem-se de fechar o corpo para o caso de uma decisão por pênaltis. Nunca se sabe quando e como os Deuses irão intervir.
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