segunda-feira, julho 26, 2010

Jê párrle portigué

"Vocês já ouviram um brasileiro falando?" - olhando pra mim, brasileiro em apreço - "Não há nada no mundo que dê mais sono. Você, porém não tem sotaque forte de brasileiro." A frase veio de um professor de "comunicação oral", que falava francês. Primeiro, fiquei chocado com a assertiva. Depois parei pra pensar. É. Aquele gordo barbudo estava certo. O português brasileiro padrão, sem sotaque, é a língua mais monótona que existe. Não há sons que se destacam. Não tem as vogais fortes do Nordeste, a ginga e a chiadeira do Rio, a pressa mineira ou o ritmo meio cantado do Sul. É uma língua discreta, onde até mesmo as sílabas tônicas são, por vezes, difíceis de serem identificadas. Imagine um francês ouvindo sua língua falada de forma plácida e linear por um brasileiro? Dou toda razão a ele. Até eu ficaria com sono.

Eu sou um falante de português monótono. Falado em Brasília; sotaque de lugar nenhum. Por mais que consiga imitar certos sotaques de por aí afora, soa falso. Sem falar no atropelado portugês lusitano, que eu acho legal, mas chega a me deixar tonto. Em um momento de ócio, fui pesquisar sobre o português falado aqui. Acho meio revoltante que haja tanta unidade linguística em um país tão grande. Nenhum dialeto; apenas sotaques diferentes. Um sujeito de Rio Branco entende perfeitamente um índio velho de Porto Alegre. Nenhuma língua indígena remanescente de destaque. Na Itália, fala-se o piemontês ao norte e o sicialiano ao sul e um não entende o outro. Portugal tem seus dialetos. Paraguai tem duas línguas oficiais (e recentemente aprendi que, em uma delas, nosso país é conhecido como Tetã Pindorama), na Bolívia são três.

Serve de consolo nossa IMENSA variedade cultural, da mitologia às festas populares; da culinária à arquitetura. Mas linguisticamente, vamos admitir. Somos monótonos. Bons para fazermos franceses dormir.

terça-feira, julho 20, 2010

Café com rosquinhas

(Roubei emprestado o título da Deo, mas ela não vai se importar com uma propagandinha extra...)

Uns chamam de rosquinhas, outros de bolachas e, na minha família, de biscoito mesmo. Nunca fui muito fã de doces mas sempre fui um grande devorador de biscoitos de todo tipo. Especialmente alguns que acompanharam minha infância. 

Lembro-me de quando tinha uns três, quatro ou cinco anos. Havia um biscoito chamado Carícia, vendido em um pacote cilíndrico de plástico brilhante com uma xícara de chá desenhada. Era esse o meu preferido. Comia aos poucos para durar mais. Mentia que estava passando mal para minha mãe me dar chá em vez de leite e eu poder comer como vinha na embalagem, com a xícara ao lado. Realmente, com chá era mais gostoso. Pelo que eu me lembre, Carícia só aparecia de vez em quando no Carrefour. E era um pouco mais caro que a maioria, por conseguinte, não aparecia muito lá em casa. Passou o tempo e ele deixou de ser fabricado, para minha tristeza.

Tinha também o biscoito Champagne que a minha mãe comprava, eu adorava mas ela nem sempre me deixava comer, porque era pra fazer pavê. E o pavê da mamãe era o melhor de todos, com chocolate arroxeado de tanta bebida - sei lá o que ela colocava, se era vinho, conhaque, os dois... Mas era incrivelmente bom. Por isso eu não reclamava, apenas esperava a hora da sobremesa. O clássico Maizena também deve figurar na lista, bem como o recheado São Luís (Bono, nos dias de hoje) que eu costumava comer meio pacote por dia antes do almoço na adolescência.

Certa vez, quando tinha uns cinco anos,  meu pai trouxe pra mim um biscoito muito exótico do Suriname. Era recheado de uva e tinha uma cor meio escura. Nunca encontrei algo parecido pra vender. Uma vez, trouxe também cookies com pedações de chocolate (ainda não existiam no Brasil), uma tentação para qualquer criança. 

Hoje, o biscoito que me traz mais recordações passadas é aquele de côco da Mabel. Vem num pacotão, vem meio queimado e eu gosto de comer com um café. Nada me lembra mais casa da avó que "Rosquinha Mabel com um gólinho" como ela dizia. Fiquei mais seletivo para biscoitos hoje. Poucos são os que realmente me agradam mas o armário está cheio deles. Poderia falar de muitos outros, mas só postei isso porque ontem fui comprar as tais rosquinhas de côco pra comer no café hoje cedo e o pacote estava bem torrado. Do jeito que eu gosto. Só que... Peraí! Torrado até demais! TODOS os sacos do supermercado apresentavam rosquinhas carbonizadas, como vítimas de explosão vulcânica. Aquele monte de carvãozinho em meio à minha possível comida me embrulhou o estômago e me deixou levemente revoltado. Pô Mabel! Como você deixa as rosquinhas passarem do ponto desse jeito???

sexta-feira, julho 16, 2010

Lembranças da Copa

Coisas da Copa que vão ficar na lembrança. Um último post sobre a Copa da África do Sul.

1- Vuvuzela
2- O sonolento jogo Brasil e Portugal
3- Os pássaros-Galvão e a primeira copa com Twitter
4- Portugal desovando 7 na Coréia do Norte, no primeiro jogo da Copa transmitido ao vivo por lá.
5- O simpático técnico da França, que escalava o time segundo os astros do Zodíaco. "Les Bleus" são conhecidos agora como "Les Chevaliers du Zodiaque" 
6- A gana de Gana.
7- La Mano de Dios uruguaya, que deu TCHAU pra Gana de dentro do gol.
8- O pênalti perdido que seguiu. Deus era uruguaio....
9- A verborragia de Dunga, altamente criticada pelos jornalistas
10- O fora dado pelo mesmo técnico na jornalista da Globo (esse foi aplaudido; não vi ninguém criticar)
11- Opinião minha: não deixam o cara em paz pra trabalhar; queriam o quê????
12- A esquisitíssima bola Jabulani
13- O Cid Moreira falando JABULAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANI
14- O craque incontestável da Copa: Mick Jagger, que eliminou seleções do banco.
15- O polvo vidente que, verdadeiro anti-Jagger, apontava o vencedor
16- Zebras: Itália e França eliminadas na fase classificatória
17- Eu torcendo pra Holanda na final
18- O caso Bruno que acompanhou a Copa
19- O estilo Dunga de se vestir
20- A frase "Um Dunga, 22 Sonecas e 180 milhões de Zangados" (Já vi os Zangados conabilizados em 108M, 160M, 280M... há controvérsias)

vuvuzela tunisia e uruguai
...:E as lembranças materiais:... 
(As vuvuzelas acordaram meu lado consumista...)

- Tinha que comprar uma Vuvuzela pra fazer barulho durante os jogos (foi muito usada)
- Há tempos estava atrás da camisa oficial da Tunísia, que acho muito bonita (havia um modelo anterior mais bonito ainda, mas esse estava legal também). Sei que nem foi pra Copa, mas ah... Camisa da Itália, da Alemanha e da Argentina todo mundo tem!
- Havaianas do Uruguai. Gostei do azul-e-preto.


Até 2014 =)

segunda-feira, julho 12, 2010

Don Corleone e os jogadores de futebol

Chego no trabalho, faço o pouco que eu tinha pra fazer hoje (ainda bem) e abro o G1 pra ver algumas notícias. Prenderam o "bandido descalço" nas Bahamas; ladrão adolescente que aparentemente havia feito uns roubos cinematográficos à la Catch Me If You Can e "tornou-se um ídolo no Facebook com 45000 seguidores" (o que me leva a crer que o G1 confundiu Face com Twitter). Eu nunca havia ouvido falar nesse sujeito.

Passada essa pequena introdução, vamos ao Don Corleone. Don Corleone fala rouco, é carismático, tem amigos poderosos, manda e desmanda com seu imenso prestígio. Um homem astuto, com alta percepção das coisas, que não trai seus princípios, o que faz dele um líder. Mas... Peraí... Don Corleone é um criminoso. Mas ninguém se lembra dele por isso. Quando chamam alguém de "Don Corleone", isso é praticamente um elogio. Nunca é no sentido de bandido ou mafioso, mas com uma grande reverência. Infla o ego de qualquer um, ser um Corleone... Na mesma categoria, temos Edward Teach, também conhecido como "Barba Negra". Teach foi um dos maiores marqueteiros de que se tem notícia e, fosse hoje, teria lugar cativo em alguma agência do Roberto Justus. Ele cultivava uma imagem medonha para aterrorizar quem cometesse o erro de estar contra ele. Invadia navios alheios com duas mechas de cabelo em chamas sob o chapéu. Sua pele vermelha de sol e sua barba que crescia até os olhos davam a ele uma aparência de demônio dos mares. Se houvesse resistência durante uma invasão, Teach era cruel. Matava todos e deixava um altamente ferido, mas vivo para espalhar a história. Era outro bandido inteligente. Em torno de Corleone, o mafioso; Teach, o pirata e Harris-Moore, o descalço há um enorme glamour, ligado ao carisma do personagem e ousadia/esperteza de seus atos. Isso acaba extrapolando e dando uma aparência romântica ao crime.

Mafioso, pirata e assaltante é legal. Que o digam Corleone, Teach, Jack Sparrow, Ocean e tantos outros. Assim sendo, nada mais viril que posar com traficantes do Rio ostentando uma metralhadora e conviver com o pessoal do crime organizado. Corleone tinha amigos influentes. Amigos influentes tinham Corleone. Jogadores de futebol têm traficantes. Traficantes têm jogadores de futebol. Ídolos de grandes torcidas. Perfeitos idiotas em simbiose. Um lado vem com a fama e a influência e o outro com o favor, o funk, as mulheres, o pó... Aí, aparece um Bruno. Impossível não falar do Bruno. Don Corleone é expert em dar sumiços. Mas Macarrão não é Corleone e a vida não é dirigida por Ford Coppola. Obviamente, a tarantella deu errado.

É o preço de se confundir carisma com artilharia e misturar um monte de craque deslumbrado com chefões criminosos mal intencionados. Não! Não é bacana ir pra festa com traficante marrento. E quem alimenta rottweiler com uma pessoa, por mais craque que seja, merece mais é apodrecer numa jaula. Como Teach fazia, diga-se de passagem, com piratas que abusassem de seu poder.

quinta-feira, julho 08, 2010

O Pendurado

Recebi por e-mail um teste que relaciona seu nome a uma lâmina de tarot. Normalmente, esses testes de personalidade dão uns resultados ultra genéricos, com os quais qualquer cidadão pode se identificar e assim, encaminhar para toda a sua lista. Existem dois oráculos que gozam de certa simpatia e credibilidade da minha parte: o i-ching e o tarot. O resultado me deixou bem intrigado.

Seu Arcano Pessoal é:


12 - O PENDURADO  

carta do taro - o pendurado
Pode ficar pendurado aí, 
desde que não fique
mostrando o pipi! (#haikai)

O Pendurado sempre foi a carta que mais me chamou a atenção dentre as lâminas do tarot. Além do mais, eu durmo nessa posição - fazendo um "4" com as pernas - e ia escrever sobre isso no blog dias antes de fazer esse teste... Coloquei em vermelho coisas que não se aplicam e conselhos que não sigo (às vezes deveria...). Em preto o que se aplica em maior ou menor grau, para efeitos de credibilidade do teste... 
 

Palavras-Chave:
Sacrifício e Abnegação


- Acontecimento marcante a nível psicológico aos 12 anos de idade;
- Espírito dedicado;
- Não pode se apegar a nada, pois corre o risco de perder;
- Desapego material;
- Renúncias pessoais;
- Muito carente emocionalmente;
- Não se deixe escravizar pelos outros;

- Expectativas;
- Redenção;
- Cuidado para não cair no complexo de vítima;
- Carinho e cuidado;
- Insatisfação com as coisas;
- Precisa superar seus limites pessoais;
- Apreensão ou aperto;
- Espiritualismo intenso;
- Precisa ser + prático(a);
- Necessidade de ser realista e objetivo;
- Sensibilidade quanto a dor do outro;
- Evite a acomodação;
- Êxtase através de experiências espirituais;
- Insegurança ou instabilidade;
- Não se martirize;
- Não faça do parceiro o seu DEUS ou HERÓI;
- Intuição aguçada;
- Vê as coisas por outro ângulo;
- Evite a estagnação;
- Produza criando;
- Caridade e doação;
- Oportunidade de superar seus karmas negativos nessa Vida;
- Debilidade orgânica; 

- Cuidado com a dependência emocional;
- Medo dos infortúnios ou fatalidade;
- Compreensão;
- Preso emocionalmente ao passado;
- Ligado à família ou raízes;
- Busca interior ou pelo transcendental;
- Reflexão;
- Não espere as coisas acontecerem: vá à luta;
- Saiba ajudar quem se ajuda;
- Dó de pessoas carentes, desprotegidas ou animais abandonados;
- Vença as fases de depressão trabalhando;
- Receio de falhar;
- Timidez;
- Atenção às pernas, sist. imunológico, pulmões, circulação, ovários;
- Precisa dirigir sua vontade;
- Aceitação.


Tire aqui a sua carta...

quinta-feira, julho 01, 2010

O ninho do pica-pau

Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem. O meu pai é o melhor amigo dos pássaros. Assim, sempre tivemos em casa alpiste, amendoim, sementes de girassol... Onde ele mora, alguns passarinhos já se acostumaram e comem na sua mão. Porém, nem todos são bem vindos. Meu pai não gosta de certas aves predadoras e/ou que façam muita sujeira. O corvo, por exemplo, é persona non-grata no jardim de sua casa. Gaivotas e pombos também estão na lista negra. Quando essas aparecem no quintal, são imediatamente espantadas. Meu pai até já perguntou a um índio local se ele não conhecia alguma solução para espantar corvos. O índio disse que seu povo colocava longos espetos de madeira fincados no chão com corvos empalados nas extremidades. A cena assustava os pássaros. O problema é que a cena também assustava o meu pai, que não se sentiria muito confortável em um jardim com cadáveres corvídeos espetados, ressecando ao sol. Um amigo do meu irmão disse que uma maneira para matar os corvos era fazer bolinhas de algodão e embebê-las em óleo de cozinha. O corvo acha o petisco uma delícia, mas seu sistema digestivo não processa tal alimento, causando uma provável morte horrorosa. Nada de matar o corvo; meu pai só queria ele longe dali.

Já o pica-pau, tem a sua simpatia. É carinhosamente alimentado, fazendo uma barulheira doida enquanto bica as árvores. Eles fizeram um ninho em um buraco numa torre de alta-tensão, em frente à casa. Todo dia, o casal de pássaros era observado com um binóculo e corvos, corujas, gaivotas e outros possíveis predadores eram afastados da área pelos meus pais. Outro dia, minha mãe ligou, avisando que os filhotes haviam nascido. E o mais interessante: o pica-pau entendeu que meus pais gostam dele e não do corvo. Sempre que o corvo pousa perto do ninho, o pica-pau começa a piar. Atá minha mãe ou meu pai saírem de casa para afastar o corvo.

Onde eu morava também havia um ninho de pica-pau. Todas as manhãs ele me acordava fazendo um barulho impressionante. Vi um dia os ovos meio azulados ali e estava aguardando os filhotes nascerem. Porém, a árvore já estava nos finalmentes e, um dia, fui acordado com o barulho de uma serra elétrica. Acordei na hora em que a parte do tronco com os ovos despencava no chão, sob o olhar indiferente do pessoal encarregado de "acabar com a árvore". Meu pai não estava lá para espantá-los. E eu, magro consolo, pude dormir até mais tarde.
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