quinta-feira, julho 01, 2010

O ninho do pica-pau

Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem. O meu pai é o melhor amigo dos pássaros. Assim, sempre tivemos em casa alpiste, amendoim, sementes de girassol... Onde ele mora, alguns passarinhos já se acostumaram e comem na sua mão. Porém, nem todos são bem vindos. Meu pai não gosta de certas aves predadoras e/ou que façam muita sujeira. O corvo, por exemplo, é persona non-grata no jardim de sua casa. Gaivotas e pombos também estão na lista negra. Quando essas aparecem no quintal, são imediatamente espantadas. Meu pai até já perguntou a um índio local se ele não conhecia alguma solução para espantar corvos. O índio disse que seu povo colocava longos espetos de madeira fincados no chão com corvos empalados nas extremidades. A cena assustava os pássaros. O problema é que a cena também assustava o meu pai, que não se sentiria muito confortável em um jardim com cadáveres corvídeos espetados, ressecando ao sol. Um amigo do meu irmão disse que uma maneira para matar os corvos era fazer bolinhas de algodão e embebê-las em óleo de cozinha. O corvo acha o petisco uma delícia, mas seu sistema digestivo não processa tal alimento, causando uma provável morte horrorosa. Nada de matar o corvo; meu pai só queria ele longe dali.

Já o pica-pau, tem a sua simpatia. É carinhosamente alimentado, fazendo uma barulheira doida enquanto bica as árvores. Eles fizeram um ninho em um buraco numa torre de alta-tensão, em frente à casa. Todo dia, o casal de pássaros era observado com um binóculo e corvos, corujas, gaivotas e outros possíveis predadores eram afastados da área pelos meus pais. Outro dia, minha mãe ligou, avisando que os filhotes haviam nascido. E o mais interessante: o pica-pau entendeu que meus pais gostam dele e não do corvo. Sempre que o corvo pousa perto do ninho, o pica-pau começa a piar. Atá minha mãe ou meu pai saírem de casa para afastar o corvo.

Onde eu morava também havia um ninho de pica-pau. Todas as manhãs ele me acordava fazendo um barulho impressionante. Vi um dia os ovos meio azulados ali e estava aguardando os filhotes nascerem. Porém, a árvore já estava nos finalmentes e, um dia, fui acordado com o barulho de uma serra elétrica. Acordei na hora em que a parte do tronco com os ovos despencava no chão, sob o olhar indiferente do pessoal encarregado de "acabar com a árvore". Meu pai não estava lá para espantá-los. E eu, magro consolo, pude dormir até mais tarde.

Um comentário:

Sara disse...

Viajei nesta narrativa, parecia parte de um bom livro, muito bom mesmo... Independente do meu amor pela natureza, foi a maneira de se falar que me atraiu...bom demais!!!

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