sexta-feira, novembro 26, 2010

O Dia de Merda

Com "M"aiúsculo. E das grandes. Não.... Porque tem dias que NADA dá certo, né? O São Murfão, esse encosto agourento, padroeiro jocoso do "dar errado", cisma em pairar sobre nós qual um urubu sobre a carniça. E, merda, ele resolveu brincar comigo ontem.

Pode parecer fuga ao tema, mas devo começar falando de futebol. A derrota inesperada do Palmeiras era um mau presságio. Palmeiras derrotado, o movimento tricolor #EntregaPalmeiras perde totalmente o sentido. Como todo bom tricolor, adoraria ver o jogo Conca-Fred-Emerson vs. Reservas. E a permanência do time paulista na Sul-Americana era a desculpa esfarrapada suficiente para o "entreguismo". A desculpa em apreço foi pra cucuia (alguém sabe onde fica a cucuia? Murphy deve viver lá.) e agora o Palmeiras não tem porquê não partir com tudo pra cima do Fluminense, como uma cobra caninana faminta. Entregar o jogo seria uma atitude ferrarística e anti esportiva. Seria o Massa deixando o Alonso passar, versão futebol.

Dia seguinte, fui fazer exame de sangue. A agulha não quebrou em mim, nem doeu e eu ganhei pão de queijo. Foi até bom. Depois, fui marcar um médico doido aí. Normal. Eis que me ligam do trabalho, alertando para Pepinos, alimento preferido de São Murfão. Novamente, merda! estava atrasado e, agora, cheio de imprevistos pra resolver. Fui pra casa, botei terno, gravata e recebi uma ligação do Banco do Brasil do Rio com - adivinhem? Pepinos! interestaduais, dessa vez. Pilotei até o trabalho. Como sei que não há vagas naquele momento, fui até minha "passagem secreta", que estava obstruída por uma corrente. Tive que dar a ré no carro, em um estacionamento entulhado e... BÓOOOFFFFF! atrás de mim tinha um Fiat estacionado em local proibido. Rastro preto no meu carro (nada grave; cera tira) e um retrovisor dobrado no Fiat batido (nada grave; motorista resolve).Mas não deixa de ser uma batida; algo que acaba com o humor de qualquer alma...

Almoço. A comida estava boa. Fiz um prato interessante; vegetais, arroz com carne, feijão e, raridade aqui, "Bife a Parmegiana". Coisas que eu gosto; que me fariam comer com prazer. Mas Murphy sentou do meu lado. Não haveria de deixar meu momento gastronômico intocado. Ah, não haveria mesmo! Tudo estava delicioso, fato raro num restaurante focado na quantidade. Mas... O bife... Estava meio nervoso. Nada grave, mas nervoso. Diligentemente, fiz um esforco extra para romper um nervo e cortar um pedaço cheio de queijo e molho de tomate. Foi quando o acidente aconteceu. Méeerda de bife! Pôoorra de nervo! Vontade de virar vegetariano (passou 2 minutos depos)!! Xinguei o cozinheiro, o restaurante, o boi e 15 gerações de antepassados ruminantes nervosos. Ao cortar de forma bisonha o nervo, que cedeu antes do previsto, o pedaço de bife escorregou pelo molho de tomate, atravessando o prato na minha direção. Um tsunami de feijão, arroz e molho Arisco explodiu no meu colo. Minha camisa branca estava agora com uma aparência Tie-Dye alaranjada. Pior! Agora, no meu bolso (sim, a camisa imaculadamente branca tinha um bolso), junto ao celular banhado nos molhos, aglutinavam-se grãos de arroz e feijão em uma orgia oleosa. Com a majestade de um imperador, levantei tentando parecer indiferente e fui pagar a conta. Depois, fui até o meu carro, em uma caminhada que parecia nunca ter fim. Voltei pra casa e, limpo, pro trabalho.

À tarde, após o expediente, saí para consertar dois relógios. Peguei a loja fechada. Depois, saí para comprar remédios. Estavam em falta nas duas farmácias mais próximas. Tarde perdida e o sol já se pondo. Dormi mais cedo, com medo do que mais poderia acontecer. São Murfão cansou da minha pessoa. E, com uma boa noite de sono, o Dia de Merda chegou ao fim...

quinta-feira, novembro 18, 2010

Cuidado, Xuxa.

Não se fala em outra coisa. Qualquer revista ou jornal que eu tenha pegado pra ler nas últimas semanas, o assunto estava lá. Geralmente tratado de forma irônica; por vezes até ridícula. É, minha gente. Monteiro Lobato era racista. Onde já se viu comparar Tia Nastácia a uma "macaca de carvão?" 

Confesso que eu tenho um certo medo do politicamente correto, a quem chamarei de PC, justamente pro texto não ficar muito politicamente correto. Ouço muito falar em valorizar o lado africano e indígena da nossa cultura e acho que isso só pode trazer benefícios. Mas não censurando Monteiro Lobato. Cresci lendo alguns livros dele, bem como livros de mitos e lendas indígenas. Cresci fã da Mitologia Brasileira, com suas raízes católico-européias, indígenas e africanas. E, quando criança, ao mesmo tempo que lia a macaca de carvão, eu ouvia, em uma novela (Dona Beija? Já não lembro qual era...) um senhor de engenho falando com ódio, babando por entre os dentes, dirigindo-se ao seu escravo: "Sssseu NNNÊEEEGRO!!" Nossa! Acho que eu preferiria ser um macaco encarvoado. Criança, já podia diferenciar a piada, ainda que de extremo mau-gosto de equiparar o negro ao macaco e a ofensa racista (aí sim) do senhor de engenho. No livro infantil, o que temos é uma piada. É humor antigo, certamente anacrônico e impróprio para os dias de hoje mas provavelmente aceitável e comum nos anos 30. 

Em vez disso, deveriam promover a cultura Afro-Brasileira de outras formas. Muito pior é o lugar comum extremamente difundido por aí que candomblé e umbanda é coisa do cramunhão! Isso sim é preocupante. Isso sim gera violência, preconceito, depredação de monumentos. Certa vez, assisti a uma palestra do Emb. Alberto da Costa e Silva, grande estudioso da cultura africana, que é muito interessante e pouco valorizada. Poucos sabem da grande metrópole que foi Timbuktu, maior e mais bem organizada que qualquer cidade européia quando da chegada dos primeiros exploradores daquele continente. Também pouco se sabe dos impérios do Mali, do Songhai, do Zimbábue... Grandes civilizações floresceram lá. E muito dessa cultura grandiosa e pouco conhecida veio parar aqui. E agora, o PC vem e mistura humor e história com racismo.
Só espero ainda poder contar e ouvir piadas de português. Sou portuga-descendente (pra ficar bem PC) e, francamente, não dou a mínima pra essas piadas. Nem meus pais, mais portuga-descendentes que eu. O PC, interpretado ao extremo, levará ao Ned Fladerismo do nosso humor, voltando ao meu medo, após muita firula. Logo, não seria exagero pensar que, após um eventual banimento de piadas lusofóbicas, obesos e anti-loiras a alcunha de Xuxa "A Rainha dos Baixinhos" seja vista como alusão à pedofilia. Cuidado, Xuxa!

terça-feira, novembro 09, 2010

Ciganos

Tenho ouvido muito falar deles ultimamente. Outro dia eu estacionei o carro perto dos hospitais. Ao olhar pro lado, vi uma senhora magra, de pele acinzentada se aproximando. Ela trajava um vestido amarelo de cetim brilhante, que me lembrava uma cortina barata. A primeira coisa que pensei foi: "que massa! uma cigana!". Era a primeira vez que eu via uma na rua. Já havia visto em eventos, livros, fotos... Mas na cidade mesmo não. A segunda coisa que pensei foi: "ah, não! Uma cigana!!" quando vi que ela vinha na minha direção e eu lembrei do que as ciganas fazem. Elas querem ler a sua sorte. E insistem. E, na boa, por mais que eu ache a cultura deles instigante, eu não gosto de insistência.

A senhora amarelada e sem dentes, com aparência de flor murcha, foi me acompanhando praticamente até o consultório. No caminho, falava incessantemente, ora oferecendo-me a leitura da sorte (como se já não me bastasse o Orkut), ora pedindo dois reias pra comprar um café. Até daria, tivesse eu algum dinheiro. Ela se ofereceu também para examinar se não havia nenhuma inveja; nenhum olho-gordo; nenhum urubu sobre minha pessoa.

Agora, minhas outras histórias envolvendo ciganos. Minha avó Aleixina tinha certa desconfiança deles. Contava ela que, seu irmão favorito, Gilberto Paiva Fernandes, funcionário de renome da Prefeitura do Rio de Janeiro, havia encontrado uma cigana em um mercado da cidade. Ela insistiu para ler seu futuro e ele aceitou, visto que não era supersticioso. Segundo ela, ele teria uma carreira de sucesso, mas "morreria cedo, com a idade de Cristo". Um dia, passando mal, foi ver um amigo médico, diretor de um hospital mal-afamado no Rio. Foi diagnosticada uma apendicite. Bom... Nada melhor para a imagem de um hospital em desgraça do que realizar uma simples cirurgia de apendicite em um alto funcionário público. Contrariando toda a família, Gilberto foi ter o órgão retirado naquele hospital. Morreu aos 33 anos, sem ter absolutamente nada no apêndice.

Meu avô Jaques, no caminho para Anta, sua cidade natal, sempre parava na beira da estrada, perto do cemitério, para pegar a "Água da Cigana". Pelo que eu me lembro, era algo parecido com uma lápide de onde saía um cano metálico do qual saía a tal água. Ficava no meio de uma vegetação mais densa. A água vinha das entranhas da terra e, pra mim, era uma água mágica. Eu  sempre perguntava pro meu avô porque era água da Cigana, mas ele não sabia a resposta. Aí eu ficava indagando se havia alguma cigana enterrada ali; perdida naquele fim de mundo... Ou alguma mulher meio fantasmagórica que protegia a floresta e purificava aquela água. Sempre que passava lá, tentava vê-la, mas saía frustrado. E a água sempre refrescava a vigem quente pelo interior do Rio, em uma paisagem com direitos a castelos em ruínas e casarões carcomidos pelo mato. 

Com isso entre a água e a sorte, prefiro ficar com a água. Cara cigana amarela, da próxima vez, venda-me umas garrafas!
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