terça-feira, novembro 09, 2010

Ciganos

Tenho ouvido muito falar deles ultimamente. Outro dia eu estacionei o carro perto dos hospitais. Ao olhar pro lado, vi uma senhora magra, de pele acinzentada se aproximando. Ela trajava um vestido amarelo de cetim brilhante, que me lembrava uma cortina barata. A primeira coisa que pensei foi: "que massa! uma cigana!". Era a primeira vez que eu via uma na rua. Já havia visto em eventos, livros, fotos... Mas na cidade mesmo não. A segunda coisa que pensei foi: "ah, não! Uma cigana!!" quando vi que ela vinha na minha direção e eu lembrei do que as ciganas fazem. Elas querem ler a sua sorte. E insistem. E, na boa, por mais que eu ache a cultura deles instigante, eu não gosto de insistência.

A senhora amarelada e sem dentes, com aparência de flor murcha, foi me acompanhando praticamente até o consultório. No caminho, falava incessantemente, ora oferecendo-me a leitura da sorte (como se já não me bastasse o Orkut), ora pedindo dois reias pra comprar um café. Até daria, tivesse eu algum dinheiro. Ela se ofereceu também para examinar se não havia nenhuma inveja; nenhum olho-gordo; nenhum urubu sobre minha pessoa.

Agora, minhas outras histórias envolvendo ciganos. Minha avó Aleixina tinha certa desconfiança deles. Contava ela que, seu irmão favorito, Gilberto Paiva Fernandes, funcionário de renome da Prefeitura do Rio de Janeiro, havia encontrado uma cigana em um mercado da cidade. Ela insistiu para ler seu futuro e ele aceitou, visto que não era supersticioso. Segundo ela, ele teria uma carreira de sucesso, mas "morreria cedo, com a idade de Cristo". Um dia, passando mal, foi ver um amigo médico, diretor de um hospital mal-afamado no Rio. Foi diagnosticada uma apendicite. Bom... Nada melhor para a imagem de um hospital em desgraça do que realizar uma simples cirurgia de apendicite em um alto funcionário público. Contrariando toda a família, Gilberto foi ter o órgão retirado naquele hospital. Morreu aos 33 anos, sem ter absolutamente nada no apêndice.

Meu avô Jaques, no caminho para Anta, sua cidade natal, sempre parava na beira da estrada, perto do cemitério, para pegar a "Água da Cigana". Pelo que eu me lembro, era algo parecido com uma lápide de onde saía um cano metálico do qual saía a tal água. Ficava no meio de uma vegetação mais densa. A água vinha das entranhas da terra e, pra mim, era uma água mágica. Eu  sempre perguntava pro meu avô porque era água da Cigana, mas ele não sabia a resposta. Aí eu ficava indagando se havia alguma cigana enterrada ali; perdida naquele fim de mundo... Ou alguma mulher meio fantasmagórica que protegia a floresta e purificava aquela água. Sempre que passava lá, tentava vê-la, mas saía frustrado. E a água sempre refrescava a vigem quente pelo interior do Rio, em uma paisagem com direitos a castelos em ruínas e casarões carcomidos pelo mato. 

Com isso entre a água e a sorte, prefiro ficar com a água. Cara cigana amarela, da próxima vez, venda-me umas garrafas!

4 comentários:

deo, a terrível. disse...

A minha cidade foi rota de ciganos por um bom tempo. Lembro dos acampamentos deles há algumas quadras da minha casa quando eu era criança. Sempre os achei simpáticos, e achava que eles eram cheios da grana. Acho que era por causa das muitas jóias adornando aquelas mulheres e homens de roupa colorida.

"D

Besos!

Gabrielle Avelar disse...

Também já fui muitas e muitas vezes abordada por ciganas querendo ler a minha sorte...
Segundo AFIRMAVAM havia muita inveja sobre mim, ao que respondia que o problema é do invejoso, coitado, que vai ter o trabalho e o desprazer de pensar em mim o dia todo tentando ter uma vida que jamais será sua.
Bom, o fato é que, como você detesto insistencia, assim como detesto repetir algo que digo, assim, como fazemos nos callcenters das operadoras de seiláoque.
Assim é que, caro Rafa Pimenta, não precisa de água benta por cigana, não!
Você já é uma pessoa de grande sorte, só por ser tão inteligente e ter esse humor que eu adoro!
Beijos!!!

Raíssa disse...

Tá aí, nunca fui abordada por uma cigana. Acho que nem mesmo vi uma. E a única vez que fizeram algo parecido comigo, foi quando eu fui parar com um grupo de amigos no terreiro de uma mãe de santo que tirou cartas pra mim. E as cartas não mostraram absolutamente nada de interessante e verdadeiro além de descreverem minha personalidade (sendo que ela perguntou qual era o meu signo). Acho que essas coisas podem até dar certo sim, mas você precisa acreditar, como tudo na vida, né? E eu simplesmente não acreditei que eu ia passar um bom tempo com meu namorado, mas não iamos casar e que depois ia aparecer um homem branco no meu caminho e nada do tipo, então é claro que tudo aquilo que as cartas falaram aconteressam às avessas. hahahahah
Beijos

Dom Rafa disse...

@Deozita: Xanxerê e Anta na rota deles... Não há cidade pequena que escape! hehehehe =)

@Gabrielle Avelar: Ahhhhh Mas a água-da-cigana de Anta era boa, viu? Pra Perrier nenhuma botar defeito.

@Raíssa: morro de curiosidade de ir a um terreiro. Uma amiga minha me chamou uma vez. Mas ao mesmo tempo, supersticioso que sou, tenho um certo medo. Vai que algum espírito pouco evoluído cisma comigo lá no terreiro e eu saio de lá encostado? 0_0

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Beijos e obrigado pelos comentarios!! ^^

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