Esse texto não é meu. É uma crônica que meu pai escreveu e eu achei muito boa. Como é um pouco grande para caber em um post só (um pouco como o meu TRATADO SOBRE O MACHO, escrito ano passado), irei dividir em algumas partes. Não é por que meu pai escreveu não, mas eu recomendo.
PARTE 1: A MENINA
Um amigo contou-me a história de G.C., quem se queixava de haver sido sempre abandonado pelas pessoas com as quais conviveu mais de perto ao longo de sua triste existência.
O primeiro caso de abandono ocorreu com Laura, menina de olhar e sorriso sedutores, na plena graça de seus doze anos, entre a infância e a adolescência, como era então comum nos anos sessenta (quando a própria cidade do Rio de Janeiro também parecia eternamente linda e adolescente, mas este último comentário já é nostalgia minha, não faz parte da história).
G.C. ficou apaixonado por Laura, sonhava com seus olhos azuis, seus cabelos louros e ondulados e seu sorriso cativante. Queria estar todo o tempo com ela, na escola, no cinema, na praça e em qualquer outro lugar. Certa vez, foi surpreendido pela mãe da menina no quarto dela em mau momento : ele sentia que estava bem molhado e temeu que seu estado de embriaguez amorosa fosse percebido e levasse ao fim do namoro. Tal não ocorreu, porém, para sua felicidade, ainda que tristemente momentânea.
Tempos depois, ele acompanhava Laura no ônibus a caminho do cinema, quando o pior aconteceu. Em certo momento, a menina pareceu ter visto alguém na rua e saltou apressada, abandonando G.C. no banco sem mesmo se despedir. Viu-a abraçar e beijar um menino que nunca tinha visto antes. Tão aturdido ficou que se deixou permanecer o resto da viagem no lugar onde estava, com os pensamentos girando, sem nada mais ver, até o ponto final, quando o motorista do ônibus certamente percebeu seu estado de abandono, compadeceu-se dele e estendeu-lhe a mão da amizade.
Continua...

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