segunda-feira, dezembro 26, 2011

Moscas

Mosca é aquele bicho indesejável que aparece do nada e vai se amontoando na carne do churrasco e na sua cerveja. E eu não estou brincando; a mosca aparece do nada bom. Ela escolhe os lugares mais pútridos possiveis - de fezes a carcaças - para alojar sua prole. E porque essa prole é tão grande? É por causa do ciclo de vida. Cada mosca vive em média uns 40 dias, o que na minha opinião é dia demais para um bicho desses. Não contente com isso, uma mosca fêmea coloca vorazes 500 ovos (aproximadamente; confesso que eu nunca contei) em intervalos nos quais 100 a 200 virão ao mundo. Assim sendo, em 40 dias, ocorre uma verdadeira suruba de moscas em que ovos são produzidos em escala industrial num frenesi reprodutivo de fazer inveja a Compadre Washington que, de TCHAN em TCHAN, passou seus genes adiante 10 vezes. Quando eu era criança, achava que elas apareciam por geração espontânea. Hoje, estou (um pouco) mais tranquilo.

As três que me são familiares são a mosca doméstica; aquela preta que nos faz de animal de companhia, a varejeira e uma canadense (seria esta apenas uma lenda?). A varejeira é o cabra macho da espécie. Ela é verde, barulhenta e se aglutina na podridão até você chegar perto; momento no qual elas se dispersam ao seu redor. Quando não estão na porqueira, estão estáticas no ar, te chamando pra briga. Não adianta; não dá pra matar uma varejeira. Ela irá desaparecer no espaço-tempo e reaparecer perto de outrem, para repetir o processo. Finalmente, há a mosca canadense, eivada de ódio e fome. Nunca encontrei uma. Pelo que eu ouvi falar, elas vivem nas florestas e hibernam durante o longo inverno. Com a chegada do verão, a neve derrete, tornando o local abafado, quente e pantanoso; uma delícia. Famintas, elas saem em busca de carne, e a humana lhes parece bastante saborosa! Dizem que ao se aproximar, elas vão até você e arrancam uma pelinha...

mosca
"Eu"

Como acabar com elas? Alguns restaurantes usam álcool e coisas com cheiros fortes. Nunca acreditei muito nessa solução e acho que não funciona. Pelo nosso almoço, elas estão dispostas a enfrentar um recinto cheio de Veja. Os africanos, aos quais essas pestes são tão familiares, desenvolveram uma armadilha interessante e eficiente, usando uma garrafa pet. Consiste em partí-la em duas e colocar a parte de cima dentro da parte de baixo. Aí é só colocar alguma gordurinha de carne na "entrada" e no interior que elas entram na garrafa e não conseguem mais sair. Deixe a garrafa no sol escaldante do Mali para melhores resultados.

armadilha pra mosca
input/ -

Finalmente, testemunhei uma ação antimosca inusitada. Em um restaurante, havia vários sacos d'água transparentes sobre cada mesa. Perguntei à dona do estabelecimento a razão daquilo e ela me explicou que era pra espantar as moscas. "Elas vêm sua imagem refletida e se assustam." Para minha surpresa, não vi moscas no local. Porém, ainda estou meio cético sobre esse método. 

Fico com a garrafa africana.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

ETERNAMENTE ABANDONADO iii

PARTE 3 A VELHICE E A MORTE

Além do cuidado de não concorrer com seu melhor amigo na arena das conquistas femininas, outra preocupação de G.C. era com as ocasionais confusões em que Luca e outros membros da turma se envolviam nos estádios de futebol e nos bares. Numa noite - “fatídica” segundo ele -, no bar do Lamas, Luca disputava a terceira ou quarta partida  de sinuca quando a confusão se formou. O namorado de uma bela morena da mesa 6 veio tirar satisfação com Luca, que nitidamente jogava de olho na garota e não na bola 7, como manda o figurino. Os dois partiram para a briga, na qual se envolveram seus pares, o pessoal da mesa 5, que era também da turma do namorado, e o pessoal da mesa 3, que tinha bronca do tal namorado, ou da sua garota, ou de ambos. Formado o sururu, os jogadores da mesa 2 e alguns da 4 resolveram aderir à pancadaria, apesar dos esforços da turma do deixa-disso, que antes jogava tranquilamente na mesa 1.

G.C. não teve outra saída que a de ajudar seu amigo Luca. Como fiel escudeiro, participou da troca de tapas e de tacadas, enquanto se arriscava a ser atingido pelas garrafas e latas de cerveja que voavam por todo o salão. No auge da batalha, foi separado de Luca e arremessado com toda a força contra uma parede, caindo por trás da mesa 6, onde a bela morena procurava esconder-se. Completamente tonto e estirado em baixo da mesa, mal conseguiu perceber a chegada de alguns policiais, que ajudaram os garçons a conter os lutadores e levaram Luca e outros para a delegacia. Permaneceu deitado onde estava, sem forças para nada. Quando o salão já se havia esvaziado e fechado, um dos garçons o encontrou, ajudou-o a lavar-se e a recompor-se, retirando-o do recinto.

Depois do incidente, Luca nunca mais o procurou, desaparecendo de sua vida. A partir de então, para encurtar a história, foi uma sucessão de novos conhecidos com quem o convívio teve sempre o mesmo desfecho, com o pobre G.C. abandonado ao final. Já idoso, as últimas experiências, invariavelmente dolorosas, foram com uma bibliotecária e, a seguir, com um chapeleiro. A senhora levava G.C. quase todo santo dia à simpática Biblioteca Municipal, onde lhe agradava passar as horas, mas às vezes ela o tratava bem e outras, nem tanto. Chegou, finalmente, o dia em que o deixou plantado em uma esquina do centro da cidade, acusando-o de velho e inútil.

O chapeleiro, que o encontrou naquele mesmo dia, quase de noite, apiedou-se do estado decadente de G.C., cujas roupas se mostravam muito usadas e mesmo puídas, com pequenos orifícios que pareciam obra de traças. Providenciou-lhe melhor traje e procurou ajudá-lo a recuperar-se dos emperramentos típicos da idade. Com o passar do tempo, cansou-se, todavia, das continuadas mazelas de que padecia G.C. e veio a abandoná-lo da mesma forma como ocorrera antes.

Carente de amigos (amores, nem falar!) e já sem um teto próprio, restou a G.C. refugiar-se em um terreno baldio, onde amargou os últimos dias de sua existência. Sua derradeira esperança, segundo o amigo que me narrou a história, era de que alguém ainda viesse a ter a compaixão de colocar em seu túmulo o seguinte epitáfio : (que eu coloquei nos comentários)

JAX
Novembro 2011


F I M
(Não continua...)

terça-feira, dezembro 06, 2011

ETERNAMENTE ABANDONADO ii

PARTE 2 O MOTORISTA E A JUVENTUDE

O convívio com o motorista, que se chamava Marcos, durou bom tempo. Era um tipo de mais idade, simples, de bom coração, que contava casos interessantes, divertidos ou dramáticos, os quais serviam para amenizar o infortúnio do amante abandonado por sua amada. Nunca mais foi procurado por Laura, nem ouviu falar dela. A iniciativa de buscá-la e procurar reacomodar as coisas passava por sua cabeça com freqüência e intensidade que foram decrescendo até que renunciou de vez a fazê-lo. 

Para sua sorte, seu novo amigo morava em Bonsucesso, bem distante do bairro onde vivia Laura, o que diminuía, em certa medida, as recordações dolorosas. O tempo foi passando, mas, antes que G.C. pudesse pensar mais seriamente em namorar uma das filhas de Marcos, notou que o motorista deu para beber de modo freqüente. Não soube o porquê e viu, poucos meses depois, que a preocupação que lhe causava essa mudança no comportamento de Marcos tinha toda razão de ser. O amigo perdeu o emprego, ia cada vez mais aos bares e, finalmente, em uma noite melancólica, deixou-o à mesa sem nada dizer e retirou-se para sempre de sua vida.
 
A exemplo da primeira vez em que fora abandonado, outra amizade surgiu para G.C. imediatamente. Luís Carlos, jovem atlético e com um sorriso fácil, aproximou-se da mesa e levou-o consigo, apresentando-o a outros conhecidos e mostrando que era ainda melhor de papo do que o ex-motorista. G.C. gostou bastante do novo amigo, a quem logo passou a chamar de Luca, assim como notou que fazia o resto da turma.

Foi um período de grandes atividades, com toda certeza a fase mais divertida vivida pela autodenominada vítima de sofridos abandonos. Luca era assíduo freqüentador das praias de Ipanema e da Barra da Tijuca, dos bares da Lapa, do Leblon e de variados outros pontos cariocas, das festas de fim-de-semana e dos estádios do Maracanã e das Laranjeiras, onde não perdia jogo do seu querido Fluminense Futebol Clube. G.C. nem gostava muito de futebol, na verdade, mas achava legal o convívio com a torcida, suas alegrias e desventuras. Como dizia o Luca, era uma fauna fantástica, verdadeira aula de sociologia. Seu amigo preparava-se, por sinal, para fazer o vestibular e queria ser sociólogo. Suas intensas atividades sociais, que deixavam pouquíssimo tempo para o estudo, faziam G.C. temer, contudo, pelo sucesso do amigo nas provas.

Na companhia de Luca, G.C. conheceu muitas meninas, mas não chegou a envolver-se com qualquer uma delas. Talvez ainda sentisse algum apego subconsciente a Laura que o retraísse de tentar novo relacionamento. Talvez receasse, tão simplesmente, sofrer nova desilusão amorosa. Pode ser também que hesitasse em competir com o amigo Luca, que parecia gostar e ser senhor de todas aquelas meninas. O fato é que preferiu adotar uma atitude de “low profile”, expressão muito usada por um certo Vinicius, que fazia parte do grupo, gostava de recorrer a termos em inglês ou em francês e não cansava de lembrar seus planos de vir a seguir a carreira diplomática.

Continua...
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