terça-feira, dezembro 06, 2011

ETERNAMENTE ABANDONADO ii

PARTE 2 O MOTORISTA E A JUVENTUDE

O convívio com o motorista, que se chamava Marcos, durou bom tempo. Era um tipo de mais idade, simples, de bom coração, que contava casos interessantes, divertidos ou dramáticos, os quais serviam para amenizar o infortúnio do amante abandonado por sua amada. Nunca mais foi procurado por Laura, nem ouviu falar dela. A iniciativa de buscá-la e procurar reacomodar as coisas passava por sua cabeça com freqüência e intensidade que foram decrescendo até que renunciou de vez a fazê-lo. 

Para sua sorte, seu novo amigo morava em Bonsucesso, bem distante do bairro onde vivia Laura, o que diminuía, em certa medida, as recordações dolorosas. O tempo foi passando, mas, antes que G.C. pudesse pensar mais seriamente em namorar uma das filhas de Marcos, notou que o motorista deu para beber de modo freqüente. Não soube o porquê e viu, poucos meses depois, que a preocupação que lhe causava essa mudança no comportamento de Marcos tinha toda razão de ser. O amigo perdeu o emprego, ia cada vez mais aos bares e, finalmente, em uma noite melancólica, deixou-o à mesa sem nada dizer e retirou-se para sempre de sua vida.
 
A exemplo da primeira vez em que fora abandonado, outra amizade surgiu para G.C. imediatamente. Luís Carlos, jovem atlético e com um sorriso fácil, aproximou-se da mesa e levou-o consigo, apresentando-o a outros conhecidos e mostrando que era ainda melhor de papo do que o ex-motorista. G.C. gostou bastante do novo amigo, a quem logo passou a chamar de Luca, assim como notou que fazia o resto da turma.

Foi um período de grandes atividades, com toda certeza a fase mais divertida vivida pela autodenominada vítima de sofridos abandonos. Luca era assíduo freqüentador das praias de Ipanema e da Barra da Tijuca, dos bares da Lapa, do Leblon e de variados outros pontos cariocas, das festas de fim-de-semana e dos estádios do Maracanã e das Laranjeiras, onde não perdia jogo do seu querido Fluminense Futebol Clube. G.C. nem gostava muito de futebol, na verdade, mas achava legal o convívio com a torcida, suas alegrias e desventuras. Como dizia o Luca, era uma fauna fantástica, verdadeira aula de sociologia. Seu amigo preparava-se, por sinal, para fazer o vestibular e queria ser sociólogo. Suas intensas atividades sociais, que deixavam pouquíssimo tempo para o estudo, faziam G.C. temer, contudo, pelo sucesso do amigo nas provas.

Na companhia de Luca, G.C. conheceu muitas meninas, mas não chegou a envolver-se com qualquer uma delas. Talvez ainda sentisse algum apego subconsciente a Laura que o retraísse de tentar novo relacionamento. Talvez receasse, tão simplesmente, sofrer nova desilusão amorosa. Pode ser também que hesitasse em competir com o amigo Luca, que parecia gostar e ser senhor de todas aquelas meninas. O fato é que preferiu adotar uma atitude de “low profile”, expressão muito usada por um certo Vinicius, que fazia parte do grupo, gostava de recorrer a termos em inglês ou em francês e não cansava de lembrar seus planos de vir a seguir a carreira diplomática.

Continua...

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