quarta-feira, dezembro 14, 2011

ETERNAMENTE ABANDONADO iii

PARTE 3 A VELHICE E A MORTE

Além do cuidado de não concorrer com seu melhor amigo na arena das conquistas femininas, outra preocupação de G.C. era com as ocasionais confusões em que Luca e outros membros da turma se envolviam nos estádios de futebol e nos bares. Numa noite - “fatídica” segundo ele -, no bar do Lamas, Luca disputava a terceira ou quarta partida  de sinuca quando a confusão se formou. O namorado de uma bela morena da mesa 6 veio tirar satisfação com Luca, que nitidamente jogava de olho na garota e não na bola 7, como manda o figurino. Os dois partiram para a briga, na qual se envolveram seus pares, o pessoal da mesa 5, que era também da turma do namorado, e o pessoal da mesa 3, que tinha bronca do tal namorado, ou da sua garota, ou de ambos. Formado o sururu, os jogadores da mesa 2 e alguns da 4 resolveram aderir à pancadaria, apesar dos esforços da turma do deixa-disso, que antes jogava tranquilamente na mesa 1.

G.C. não teve outra saída que a de ajudar seu amigo Luca. Como fiel escudeiro, participou da troca de tapas e de tacadas, enquanto se arriscava a ser atingido pelas garrafas e latas de cerveja que voavam por todo o salão. No auge da batalha, foi separado de Luca e arremessado com toda a força contra uma parede, caindo por trás da mesa 6, onde a bela morena procurava esconder-se. Completamente tonto e estirado em baixo da mesa, mal conseguiu perceber a chegada de alguns policiais, que ajudaram os garçons a conter os lutadores e levaram Luca e outros para a delegacia. Permaneceu deitado onde estava, sem forças para nada. Quando o salão já se havia esvaziado e fechado, um dos garçons o encontrou, ajudou-o a lavar-se e a recompor-se, retirando-o do recinto.

Depois do incidente, Luca nunca mais o procurou, desaparecendo de sua vida. A partir de então, para encurtar a história, foi uma sucessão de novos conhecidos com quem o convívio teve sempre o mesmo desfecho, com o pobre G.C. abandonado ao final. Já idoso, as últimas experiências, invariavelmente dolorosas, foram com uma bibliotecária e, a seguir, com um chapeleiro. A senhora levava G.C. quase todo santo dia à simpática Biblioteca Municipal, onde lhe agradava passar as horas, mas às vezes ela o tratava bem e outras, nem tanto. Chegou, finalmente, o dia em que o deixou plantado em uma esquina do centro da cidade, acusando-o de velho e inútil.

O chapeleiro, que o encontrou naquele mesmo dia, quase de noite, apiedou-se do estado decadente de G.C., cujas roupas se mostravam muito usadas e mesmo puídas, com pequenos orifícios que pareciam obra de traças. Providenciou-lhe melhor traje e procurou ajudá-lo a recuperar-se dos emperramentos típicos da idade. Com o passar do tempo, cansou-se, todavia, das continuadas mazelas de que padecia G.C. e veio a abandoná-lo da mesma forma como ocorrera antes.

Carente de amigos (amores, nem falar!) e já sem um teto próprio, restou a G.C. refugiar-se em um terreno baldio, onde amargou os últimos dias de sua existência. Sua derradeira esperança, segundo o amigo que me narrou a história, era de que alguém ainda viesse a ter a compaixão de colocar em seu túmulo o seguinte epitáfio : (que eu coloquei nos comentários)

JAX
Novembro 2011


F I M
(Não continua...)

Um comentário:

Dom Rafa disse...

Aqui jaz o pobre
Guarda-Chuva
Eternamente abandonado





=(

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