terça-feira, maio 01, 2012

Filantropia

Atenção! Este é um post de: rabugentice

- Alô? Por favor, o senhor Raphael?
- É ele...
- Está tudo bem com o senhor, seu Raphael?
- (medo) Sim.
- GRAÇAS A DEUS, SR. RAPHAEL
- (Muito medo...)

Sempre começa assim. Do início do ano pra cá, creches, lares de velhinhos e outras entidades beneficentes já me ligaram várias vezes atrás de doações. Após o "Graças a Deus" da ligação, vem uma longa descrição do "motivo do nosso contato". Nele, são minuciosamente detalhadas as necessidades das pessoas de quem a instituição cuida. O discurso vai até me convencer de que serei o pior ser humano do planeta caso fique indiferente ao apelo. Nesse momento de fraqueza, a moça simpática do outro lado da linha pergunta se pode contar com a minha contribuição. Qualquer valor que seja.

Minha boa vontade para com esses esquemas veio no dia em que eu vi em uma propaganda: "por apenas 10 dólares ao mês, você ajuda uma criança africana com isso e aquilo". Eu sei bem que as condições de vida na África não costumam ser das melhores. Logo, 10 dólares mensais fariam muito mais diferença pro somaliano que pra mim. Fui falar nisso com a minha mãe e ela vetou imediatamente meus planos de doação. Ela disse que os caras iam ficar no meu pé e, de somaliano em somaliano, eu iria adotar a África inteira. Faz todo sentido. Se eu pago as aulas do Mohamed do norte do Níger, eu provavelmente iria amar apadrinhar a Salimata do Burkina Faso.

Como contribuir para um mundo melhor sem gente te enchendo a paciência? Ajudando os outros no anonimato. Dito isso, quando eu faço algum tipo de caridade, ninguém fica sabendo. É algo entre eu e um objeto, seja um cofre de doações, uma caixa de casacos numa igreja, ou um amontoado de alimentos na porta de um teatro.

PORÉM...
Eis que no Natal passado e na Páscoa esse ano, essas instituições escolhem as datas certas e me pegaram num momento de mão mais folgada. Fiz duas doações no valor de 20 reais cada. Elas pediram e-mail, CPF e mil outros dados para fazer um cadastro e me mandarem uma nota de agradecimento e o recibo da doação. QUAL PARTE DO ANONIMATO ELAS NÃO ENTENDERAM?!?!? Já fiz a doação na má vontade. Mas fiz mesmo assim. E deixei claro que eu realmente não gostaria de receber outras solicitações desse tipo. Agora, sem brincadeiras... Semanas depois, recebo ligações das entidades. Uma queria 50 reais mensais para ajudar alguma creche. A outra não pediu tanto mas... Me veio com um papo de "podemos contar com você para ajudar nosso vovô? ...um vovô... ...o vovô... " Quando veio o artigo definido a coisa ficou feia. Agora eu havia sido elevado a responsável por determinado vovô necessitado. Era demais pra mim. Sinto muito, vovô. Eu sou o pior ser humano do mundo. 

doando dinheiro
Bono Vox, deixo essa pra você.

5 comentários:

Punk Kätze disse...

Rafa, acontecia muito comigo na época do MF. Não sei como eles conseguiam os nossos ramais, rs...
#medo

ps: quaaase (foi muito por pouco) que fiz doação à ActionAid. Não sabia que eles ficavam no pé depois, hehehe. ¬¬

Dom Rafa disse...

Coincidência³!! ONTEM, logo após postar isso aqui, lembrei de vc ter comentado neste espaço em tempos remotos. Foi uma boa surpresa! =D

Esse pessoal não tem muito bom senso nesse aspecto. Acho que insistência e histórias de "dar peninha" causam má vontade na maioria da população. Sei lá... Custava mandar uma carta para marcar um dia e local para coletar eventuais donativos de uma comunidade? -_-

Beijos!

Deo a Terrível disse...

Nada me tira da cabeça que as pessoas que ligam pra gente ganham uma porcentagem pra cada doação que conseguirem. Só isso explica a insistência ao telefone. rsrs

Besos!
"D

Raíssa disse...

Não sei até onde devemos fazer a "nossa parte" ou se isso seria uma ingenuidade por causa da corrupção. Como eu ando de ônibus, acabo sendo vítima dos "pedintes do bus", às vezes abro a carteira, outras não. Mas é tão complicado. Você se pergunta pra onde vai o dinheiro, se é pro filho doente, pro vício ou pro almoço. Às vezes parece que tanto faz.
Filantropia. Sabe, eu queria acreditar mais nos trabalhos dessas pessoas, mas é que a nossa contribuição para na parte "agradecemos a sua doação", daí pra frente só Deus sabe o que acontece. Quando eu era menor, minha mãe sempre doava pro Criança Esperança, por exemplo, mas depois houve boatos de desvio de dinheiro e pronto, nunca mais.
Não sei, quando rola um "feeling" acabo doando aqui ou ali, mas é complicado. No fim das contas, acabo doando mais objetos mesmo. Roupas, presentes, alimentos... Essas coisas que são mais difíceis de se desviarem do caminho (mas não impossíveis)... É que quando envolve dinheiro o ser humano se transforma num bicho mais estranho ainda.
Beijos

Dom Rafa disse...

Vocês entenderam bem o espírito da coisa... hehehe
Raramente eu posso, mas me sinto melhor em doar comida. Uma vez uma guardadora de carro em frente a um mercado me pediu uns dinheiro$, mas eu estava sem nada. Comprei uma maçã pra ela, mas ela não aceitou. Devia estar com medo de ter veneno?

Beijos

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